De repente eu estava enjoada, mas havia um motivo.
É como se, agora, de olhos fechados, eu pudesse me lembrar de tudo que já tivemos. E ouvir todos os carinhos que já lhe falei. Todas as demonstrações que fiz, deixando transparecer todo o amor que tinha. Mas tinha um dia em especial que martelava em minha mente. Um dia e uma noite, para ser mais precisa. Como se eu estivesse voltando no tempo, e revivendo aquela cena. Tudo de novo. Não, eu não estava triste por isso. Talvez triste por saber que aquilo não voltaria a acontecer, nunca mais. Mas não estava triste por lembrar. Era bom lembrar. Eu senti exatamente a mesma sensação de paz que pairava dentro do meu corpo quando estava ao seu lado, na companhia do meu melhor amigo.
O seu sorriso estava brilhante como nunca naquele dia. Seus olhos piscavam admirando meu rosto apoiado em seu colo. Meu coração estava acelerado pela sua presença. Não era nervoso. Acho que era medo. Tinha cuidado na narração de cada frase, em cada movimento. É, era o medo de te decepcionar e te perder. Mas aquilo não estava em questão, você havia prometido não me deixar nunca mais. E eu confiava em você.
Eu queria um espelho para ver o reflexo do meu rosto bobo alegre tendo você ali afagando meus cabelos. Eu ria, ria muito. Consigo ouvir o som das minhas gargalhadas como se eu ainda fosse feliz como naquele dia. Estávamos acabando os preparativos para a festa daquela noite. Sozinhos, nos divertíamos em qualquer ocasião. E naquele dia, não era necessária a presença de mais ninguém naquele quarto.
Mas você parecia esconder algo. Pretendia me falar alguma coisa que eu não imaginava o que seria. Não insisti. Sabia que se fosse necessário, você me falaria. Não havia segredos entre nós.
O sol já não estava mais no céu, e tinha sido trocado pela lua. Grande parte dos convidados já estava rodeando o jardim. Mas não importava quem estava a nossa volta. O bom era estar abraçada com você a todo momento, entrelaçada em seu corpo durante a noite inteira. Estava tudo perfeito, eu não queria o fim.
Você me puxou num canto e falou que me amava. As lágrimas pesaram nos meus olhos que não foram capazes de segurá-las. Deixei escapar uma ou duas, limpando rapidamente. Eu parecia uma bobinha. Você riu da minha cara, de maneira fofa. Eu via lágrimas em seus olhos também. Um pouco isolados dos outros, você disse que sem dúvidas eu era a segunda mulher que você mais amava no mundo, ficando atrás apenas no amor pela sua mãe. Aquilo era amor, você me ensinou o que é amor de verdade. A felicidade não cabia dentro de mim e escorreu ainda mais pelo meu rosto, invalidando o movimento de secá-la. Não pudemos evitar um abraço molhado. Naquele momento eu não tinha dúvidas: você era a pessoa mais linda do mundo. E era meu.
Era isso que você tinha que me falar? Que estava preso no seu coração? Por que eu deixei aquele momento acabar? Por que não aproveitei para também dizer tudo o que eu pensava? Por que não tirei o sentimento guardado no meu coração e dei pra você? Eu devia ter lhe beijado. Calorosamente. Fui covarde, tive medo de que isso resultasse em te perder. Isso pouco importaria hoje em dia. Não houve nada que impedisse a nossa separação. E eu teria tocado seus lábios, sentido seu corpo ainda mais próximo ao meu. Mas o sonho permaneceu sendo impossível.
No fim daquela noite você se despediu de mim e nada havia mudado. Éramos os melhores amigos mais puros e felizes do planeta. A festa tinha sido boa, e o dia fora marcante para pontuar que o nosso amor seria eterno, mesmo quando acabasse. E eu me sinto culpada pelo fim, embora não tenha culpa alguma, pois não lhe mostrei em palavras o que se passava na minha cabeça e não fiz nada que resultasse no final. Mas acabou.
Ao abrir os olhos, um fundo de arrependimento ocupava um espaço do meu peito e isso me trazia um desconforto no estômago.
Eu estava enjoada, e esse era o motivo.
Bruna Fortes
Bruna Fortes
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